A Era do Bomsucessimo.
Eric Hobsbawm escreveu quatro grandes livros
reunidos numa coleção chamada de “Eras[1]”.
O respeitado historiador britânico, nestes livros, nos traz a história da
sociedade ocidental desde a época da revolução industrial, passando pelo
capitalismo, imperialismo e particularmente pelo Século XX, no excelente “a Era
dos Extremos”.
Já que o historiador britânico talvez não possa
desenvolver uma Era especifica para o Brasil temos a necessidade de averiguar uma
nova era, essa quase que exclusivamente brasileira: A Era do Coitadismo:
2003-2018.
A autopiedade é uma das
piores coisas que podemos sentir. Ela nos enfraquece tornando-nos vítimas de um
aprisionamento mental desesperador. Quando sentimos dó de nós mesmos acabamos
por reclamar todo o tempo e nada fazemos para mudar nossa situação. É um vicio instalado
na alma. Alimentamos o sentimento autopiedoso, quando sustentamos um
sentimento de inferioridade, causado pela insegurança.
A “Era do Coitadismo”
(2002-2018) retrata o período no qual os governantes do Brasil fizeram da
autopiedade um projeto de governo. Ou melhor, um projeto de se “manter no governo” por períodos
imperiais.
Ora, se uma pedra for
atirada em sua direção, você involuntariamente se protegerá. É o reflexo da
autodefesa. E trazendo isto para o campo politico o que o país precisava era de
um olhar de esperança para o futuro, para implementar o sonho de país grande e
desenvolvido. Mas o que fez o primeiro governo do Brasil no século XXI? Elogiou
a capacidade do brasileiro em empreender e deixar para traz a era dos governos
não voltados para o povo? Vacinou o povo contra o vírus do “coitadismo”, da
autopiedade, da dependência e da inação?
Fez exatamente o oposto.
Criou políticas sociais
de afirmação que na sua real natureza cabresteava a pobreza, a
institucionalizava e a estendia para o futuro de forma eterna. Visto que a "pena de si mesmo" é um sentimento intrínseco à natureza
humana, o governo daquele período soube usa-la a seu favor. Os traumas, abandonos,
dores da alma, corações partidos, humilhações, e muitas outras coisas, que costumam
fazer parte da implantação da autopiedade tornou-se o combustível para
confirmar a “natureza do brasileiro”:
um eterno coitado que precisa de um governo paternal para protegê-lo.
O
carro-chefe da política social do novo governo foi, depois de uma brevíssima
campanha chamada Fome Zero, a “criação” do Bolsa Família, programa de
transferência de renda para famílias situadas abaixo da linha de pobreza. O Bolsa Família foi uma ideia genial. Fruto da unificação de diversos programas
pré-existentes, (Bolsa Escola, Bolsa Alimentação, Cartão Alimentação e o
Auxílio Gás), foi unificado e centralizado sob um mesmo Ministério, o do
Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS). Estava consolidada a autopiedade como política
de governo.
Aqueles
benefícios anteriores foram ampliados não só em relação à sua cobertura quanto
em relação ao benefício concedido. Já no
final do primeiro termo do mandato, em maio de 2006, o programa estava
implantado em 99,9% dos municípios brasileiros, beneficiando cerca de treze milhões
de famílias, atingindo quase 47 milhões de brasileiros “coitados” que passaram a receber uma ajuda do estado paternal para
“combater a miséria e a exclusão social e
para promover a emancipação das famílias mais pobres”.
Quantos conseguiram sair da miséria em
todos os governos da Era do Coitadismo? Dados do Ministério do Desenvolvimento
Social atestam que os brasileiros que voluntariamente decidiram deixar o
programa, fazem parte de um clube extremamente raro: 0,3%. Em 2017, apenas 35
mil chefes de família cancelaram por vontade própria o cartão verde e amarelo
do programa. Não apenas é metade dos que saíram em 2013, mas é menos do que
aqueles que saíram em 2012. Vejamos, ano
a ano, o que a principal politica da “Era
do Coitadismo” proporcionou ao brasileiro:

Por que tão poucos brasileiros conseguiram sair da
margem de pobreza e se desligarem do principal programa de dependência criado
pelos governos eleitos no século XXI?
Ora,
quando o Estado cria uma forma de dependência na qual as pessoas não precisam
ir a luta, tudo se justifica. Deixar de receber uma mesada, uma cota, uma
condição especial, uma fila preferencial, pode implicar em deixar de ser
coitado e partir para uma reflexão, uma atitude que implique em mudança de
vida. E isso não e fácil, implica em reconstruir sua opinião sobre si mesmo.
O Estado não sabe o que é melhor para cada
cidadão brasileiro. Nossos valores não devem
ser obtidos pelo critério do julgamento alheio, dos outros, mas pelo que sabemos a nosso respeito e pelo que conhecemos das
nossas capacidades pessoais. Quanto mais acredita
que se é capaz, mais se torna realmente capaz.
Nem tudo na vida é sorte,
a maior parte do sucesso de uma pessoa é fruto do trabalho dela. É isso que o
Estado precisa desenvolver: a capacidade do brasileiro de sair do buraco e
superar a sua própria condição de “coitado”.
É a hora de iniciarmos a
“Era do Bomsucessismo”.
[1] A era das Revoluções 1789-1848, A
Era do Capital 1848-1785, A Era dos Impérios, 1785-1914 e a Era dos Extremos
1914-1991.
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